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Bússola

Ei amor, eu não sabia que seria no “fim” que saberia escrever com tanta clareza sobre você. Terminar esse ciclo doeu um pouco menos não só porque fomos acabando em doses, mas porque acredito que o ‘a gente’ não acabou. Mudou de fase. Vou me segurar um pouquinho nessa ideia, vai fazer bem pra mim.  Não posso te prometer que a gente realmente vai voltar. Não posso te prometer que daqui algumas luas você vai dormir no aconchego da minha cama de novo. Mas dentro de mim, eu carrego a confiança de acreditar nisso. Acredito que existe uma versão nossa ainda mais linda esperando ali na frente a gente se reencontrar. Acredito que os melhores sonhos que a espiritualidade tem pra nós ainda vão acontecer, quando for a hora certa. Eu te disse que abriria espaço pra um novo amor, pra conhecer outras pessoas (e vou) mas o que eu mais espero é ainda te sentir cheirando meu pescoço e em seguida suspirar. É ver pelo cantinho do olho o seu sorriso espalhando no rosto ao me abraçar. Aquele abraço que ...

Assumida

Minha linda, algum tempo atrás você me disse que gostaria de receber um livrinho com os meus textos sobre nós e na ocasião eu notei: não sabia escrever sobre o amor. Sei escrever robustamente sobre ilusões, decepções e amores platônicos não correspondidos. Mas sobre esse que eu sinto, ainda não. Notar isso foi uma dor que nem sabia que morava em mim. Eu amo você de um jeito que ainda não aprendi a colocar em palavras. Não da forma “rebuscada” como eu sempre narrei minha vida. Mas meu sentimento não é pequeno. Minhas vontades, maiores ainda. E eventualmente me vejo desajustada, lutando contra meu relógio mental que tenta acompanhar (controlar) o processo que me pede justamente o contrário: leveza, calma, fluir. Porque na verdade, o amor gosta de coisas simples. Você tem um coração tão puro e tão lindo que eu sempre agradeço a Deus por ter te colocado na minha vida, ao mesmo tempo que sofro querendo correr para ter logo o melhor para te oferecer. Então fico triste toda vez que noto ainda...

Anacrônica

Eu sinto o tempo escorrendo entre meus dedos Como areias movediças dentro da ampulheta  Eu sinto muito E eu gostaria às vezes de sentir menos, de me sentir normal Sentir o tempo entre os dedos é um sentimento físico porque ele corta um pouco Ora chego muito cedo, ora parece que já cheguei tarde Será que um dia estarei sincronizada com ele? Ou é de grandeza tal que nunca aprenderei a decifrá-lo? As pessoas se surpreendem ao saber minha idade. Parece que eu roubei um segredo que é precioso para muitos. Pra mim, espero que seja só uma chance de poder viver outras coisas. Como se eu ganhasse um bônus pra resolver aquilo que ainda não pude.  Meus dedos são longos, mas até mesmo eles não conseguem alcançar os seus desejos. Como aquele desenho que fiz na adolescência tentando em vão abraçar o mundo, sem braços longos o suficiente e nem pés para caminhar. Não vejo sentido em sentir tanto. Como se as feridas que eu carrego não fossem somente as minhas, mas de toda uma sociedade. E acho...

Esperar pra ver

Tem dias que a vida é sobre jogar sementes  e aguardar  o tempo  fazer  o que tem que fazer 

Cítrica

Havia perdido a esperança  de que alguém pudesse  me fazer sentir confiança outra vez  Até que ela,  com seu jeito doce  escondido sob uma casca,  me fitou com seus lindos olhos estreitos e disse: - vai no seu tempo porque tô indo nele também.

Kintsugi

Haviam pedaços. Pedaços espaçados e espalhados de mim por todos os lados. Espaços vazios e o negativo entre os cacos. Foi como se eu acordasse de um sonho e me deparasse com todos eles lá. Não os reconhecia, não sabia como foram ali parar. Tinham cores muito brilhantes, holográficas, cintilavam. Pedaços vibrantes de uma mulher muito viva. Senti como se até aqui, minha vida tivesse sido um grande ensaio. Recebi o roteiro e vim estudando as falas, marcando os passos. Era como se agora, perto da cortina abrir, as cenas aparecessem com mais cor e sentido. Mas faltavam os pedaços. Olhei de novo ao redor sem crer como não os tinha percebido. Será que eu dormi ou eles realmente estavam escondidos? Meu peito pesou e quando passei a mão senti um estranho desconforto: vestia um imã. Debaixo dele, os espaços vazios com tamanhos similares aos cacos no chão. Era eu que brilhava. Era meu peito que se escondia fingindo que não faltava nada. Faltava.  O imã toda vida fora usado do lado errado. Por...

Álbum

Como um vento leve que suavemente desmonta um castelo de areia modelado sem muita técnica na beira da praia, você estava sumindo Como aquela velha lâmpada incandescente que, diferente das modernas, vão ficando mais fracas e dão sinais de que vão apagar, você estava sumindo De alguma forma eu notei, porque te mandei uma mensagem dizendo que estava sentindo sua falta. Você até se compadeceu, disse que estava sempre por ali. E era verdade, estava. Mas não o suficiente pra mim.  Encontrar você mudou tudo o que eu estava vivendo, me deu ânimo, me deu rumo. Foi tão bom que eu não queria que acabasse. Mas se estou chorando enquanto escrevo isso, é porque sei que precisava que acabasse. No momento exato que vivemos, nossas vidas não se encaixam. Não importa se a gente tinha tudo pra brilhar, não é nosso momento. Fui colecionando cada figurinha de despedida e colando no meu caderno de recordações. Até segunda  ainda citava seu nome como alguém por quem tenho sentimentos. Mas quando che...

Antiga

São 01:08 da manhã  Cliquei a tela do celular mesmo sabendo que não tem ninguém pra me mandar mensagem a essa hora Senti confusa o gosto dos textos exaustivamente digitados nas teclas com letras e números Não faz muito tempo, mas já tem uma eternidade  O frisson das histórias contadas por inteiro mas escritas pela metade Minha unha na pele das suas costas  Meu suspiro suave no ouvido A música arranhada por guitarras no banco do carona Os textos de páginas, as conversas de horas avançadas pela madrugada  A internet tem cortado cada vez mais nosso tempo juntos, medindo as emoções por caracteres rasos A profundidade do meu desejo não se adequa a esses tempos Resisto a eles sendo fiel a mim como você nunca foi  Do I wanna know? How many times can you fall in love? Talvez eu esteja me tornando démodé, não me importo: meus amores não são líquidos 

Hora certa

Procuro um amor que não tenha medo do escuro Nem de mergulhar fundo Nem de se refazer Procuro um amor que queira mudar tudo Que queira desbravar o mundo  Que queira enlouquecer  Não quero que me prometa nada Não quero que faça de conta Quero que se mostre sem ter nada a temer Procuro um amor  que chegue na hora certa e que acredite que a vida já é muito boa mas que ela ganha um melhor compasso quando nossos relógios antigos sincronizam

Travessia

{Eu quase nunca escrevo sobre mim Sempre sobre outros, sempre sobre vida, sempre sobre sentir, mas muito pouco, sobre mim Olhar a si tão de perto, nesse processo microscópico, deixa a visão um pouco turva. Não sei se me enxergo bem, ou estou vendo coisas} Estou mais uma vez, encarando a ponte sobre o abismo. Ela sempre me encontra, ela sempre aparece. Do outro lado do vale, o mundo parece mais bonito. A diferença é bem sutil mas intensa: o sol nasce por lá. Por isso a grama é mais vistosa, por isso tem flores mais coloridas e passarinhos nas árvores. Essa pequena diferença que é a posição do sol muda toda a configuração do lugar.  Eu andei muito pra chegar aqui. A trilha foi mata a dentro, na confiança daquele pequeno raio de sol que guiava ao nascer. A ponte, olhando pra mim. É só atravessar. Nem é tão grande, é logo ali.  Mas é passando em cima do abismo. É encarando que uma vez travessia, talvez nunca mais eu queira voltar. E porquê haveria de querer?  A ponte, olhando...

Fresta

Depois de um tempo no escuro nossas pupilas aprenderam o ajuste necessário para enxergar pelas frestas. Se acostumaram com a pouca luz, captam os mais sutis brilhos. Não precisa mais de muita coisa pra ver, ela já enxerga. É possível, inclusive, se manter nesse espaço com muita naturalidade, se mover tranquilamente e com confiança de por onde está passando.  Não é possível ver o todo.  Não é possível ver a cor das parede e dos objetos, nem ler as longas narrativas que eles contam. Mas se você chegar bem perto de onde brilha, é possível sentir as texturas. É possível tocar e se descobrir encantada por ter outra perspectiva de algo que parecia muito diferente na luz do dia. Às vezes a gente acha que precisa de mais, mas na verdade não precisa saber muito. Tava bem escuro quando a gente cruzou nossas vidas Minhas pupilas, já ambientadas me disseram: pode tocar, isso brilha.

Milimétrico

O registro do chuveiro tem que abrir bem pouquinho pra esquentar, disse o dono do apartamento. Eu tava bem cansada e aguardava lavar o cabelo faziam dois dias. Percebi que o chuveiro não respondia. Fechei mais. Nada. A água gelada respingava pelo box e me vinha como um outdoor: você vai ter que encarar.  Era noite e realmente não tinha o que ser feito. Se o registro frouxo não encontrasse o ponto certo, a água não esquentaria. Era muito milimétrico, eu não advinharia. Entendi que não dava pra lutar. Encarei a água fria, num dia ameno. Meu corpo pequeno se tornou menor ainda. Tenso, rígido, tremia. Não ia conseguir ficar por muito tempo. Fechei a água para aplicar o shampoo. Não é o que faço normalmente, mas eu me sentia congelando. Dois dias esperando pra lavar o cabelo, e agora isso. Ironias do destino. Enxaguei tentando limpar bem ao mesmo tempo que fugia dos respingos. O frio circulava no banheiro grande, eu tremia. Lavar meu cabelo exigia pelo menos 4 etapas, com pausas diferen...

Despedida

Quando a gente marca a data da partida, o corpo inteiro começa seu trabalho de despedida  O ambiente vai se tornando cada vez menos familiar, como se nos tornássemos visitas no nosso próprio lugar. Aquele lustre um pouco torto, aquele quadro que ficou por pendurar, o desejo antes vivo de ajustar agora se transforma num quase silencioso incômodo sobre já não mais se importar Era julho quando você marcou sua data. Sozinho, sem me comunicar, decidiu olhar pra tudo fora e deixar pra lá. Cansou de ter os mesmos problemas pra encarar, perdeu o desejo de apreciar, pareceu tudo difícil demais de lidar. Eu, sem perceber nada, continuei sozinha por nós dois. Eu ainda vivia na mesma casa, que a gente vinha se dedicando a decorar. Mesmo com tantas diferenças, tudo para mim parecia estar entrando no lugar. Mas em setembro sempre chove muito e eu notei que todos os lugares que você ocupava estavam mofados. Na sua ausência a falta gritava - os espaços que ocupava e a bagunça que fazia. A gente só...

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ando saudosista, como costume revisito as histórias e versões tantas eus que já fui tantas escadas que subi tantos amores que senti ando saudosista, como acontece sempre revisito as casas e roupas as imagens que tive e as que reconstruí tantas escolhas que fiz tantas que deixei para trás ando chorosa ao lembrar que todas elas ainda sou eu mas nunca mais serei elas esse caminho só tem uma linha ando

Memórias

26 de dezembro de 2012 Eu leio coisas sobre o amor e inevitavelmente lembro. Fico me perguntando porque a vida fez uma puta sacanagem dessas comigo. Com a gente. Porque você chegou cedo e eu cheguei tarde? A gente andava juntos, porque não conseguimos sincronizar? Será que na prática não ia funcionar? Será que em dois meses iríamos nos odiar? Pode ser que eu fale essas coisas agora porque estou no vazio da transição entre nosso passado e o meu futuro. Mas pode ser que eu tenha razão. Ainda poderia relatar tantas coisas que nunca apareceram nessas linhas... Acho que não contei nem metade das nossas histórias. A história, por exemplo, sobre o anel que te dei. Sobre nosso segundo primeiro beijo. Sobre a carta que ganhei de Natal. Sobre as conversas dentro do carro. Sobre nossos aniversários. Ou sobre quando você chegou de viagem. Ah, eu lembro! Lembro do seu abraço demorado, do beijo roubado e das implicâncias. Lembro que parecia que o ar tinha voltado para você. Sabe... al...

Composição

Ainda uso caneta quando escrevo. Mas às margens do rio da vida (que corre ou não pro mar) não há tempo para rascunhos Viver requer urgência. E coragem. Temos milésimos de segundo para decidir o momento certo de se lançar mesmo sem saber pra onde a correnteza desce. É intuir a hora de nadar, flutuar, remar ou simplesmente, se deixar levar. Dá medo. As águas são sempre incertas Desconhecidas Talvez até, traiçoeiras. Respira Mar calmo não forma bom marinheiro. Você não é mais iniciante Sabe identificar a direção que o vento sopra. Sabe navegar. Cria coragem e vai. Mesmo sem barco à vela, vai. Consulta a bússula do coração e vai. Porque viver é isso. Não se usa caneta no mar.

Prisioneira

Já não sei o que faço Pra romper o pacto Que fiz sem saber com o infinito Pra levar uma vida a sofrer Quanto ainda preciso andar Pra ganhar o direito De alguém me olhar nos olhos E querer permanecer? Quando a nuvem faz que vai chover Eu saio Quando começa o frio Eu me agasalho Quando vejo que o amor não vem desisto Depois me refaço Quero acreditar no abraço No laço e no dia seguinte. Você continua indo embora, é minha sina. Sou prisioneira solitária na minha própria vida Aguardando o dia (só preciso de um dia) pra achar as chaves libertar as portas e implodir meu castelo baseado em nostalgia. Cansei de tanto espaço. Quero companhia.

Aquilo que não disse

Não sou muito de falar, cê sabe. Talvez pense q não gosto de você. Não é verdade, mas eu prefiro assim. Não sou mto bom pra expressar sentimentos. Sem contar que não sei entender o que tá rolando. Quando a gente se conheceu eu te achei legal.  E sabendo que você tava de passagem, fiquei sussegado.  Aquilo não iria adiante, não era arriscado. Mas ai no nosso primeiro encontro você dormiu no meu ombro, duas vezes. Eram quase 5h da manhã e acho que você tinha entrado cedo no trabalho. Deveria ter sido esquisito, mas foi, sei lá. Legal. Ver você falando como se estivesse bêbada, com aquela franjinha escura caindo na cara, os óculos meio tortos enquanto você cochilava. Eu não gosto de dizer, mas... foi fofo. Eu não sabia se ia mandar mensagem depois. Mas mandei. Sei lá, deu vontade. Conhecer alguém sincera e de fora, me deu liberdade. Foi bom dançar, gostei de sair contigo. E também porque sua imagem olhando pro meu nariz ficou grudada na cabeça. Aí saimos de nov...

Três

Tinha um garoto do ginásio que eu achava bonito. Seu apelido virou Três. Nunca esqueci disso. Três é um número bom. Penso em ter três filhos. Três bichos de estimação E três lugares pra chamar de lar. Meu mapa disse que é provável que eu me case três vezes Falo mediocremente três línguas Visitei três países europeus E estudei três anos da segunda graduação. Três da tarde é a hora do café E da manhã, inspiração. Meu aniversário é 17, que também é número primo como o 3, mas é meio inacessível porque é quantia alta. 17 a gente não segura em uma mão. Falando em mão, Teresinha de Jesus De uma queda foi ao chão Acudiram três cavalheiros e o terceiro foi aquele a quem ela deu a mão.  Três parece a medida certa. Equilíbrio. Com o primeiro amor aprendi a amar Com o segundo, a recomeçar E com o terceiro espero aprender a repousar.

Romântica

Não tenho culpa de querer pra mim todo o amor do mundo. Fez muito sentido quando ouvi que 'cada um aceita o amor que acredita merecer'* Acredito nisso. O amor faz acender aquilo que há de melhor em você. Eu provei o amor uma vez e foi maravilhoso. Ma ra vi lho so. Sentia frio na barriga cada vez que o nome dele surgia na tela do celular. E em cada vez que via seus olhos brilhando. Eu sou romântica sim, obrigada. E amor que é amor, pra mim, não acaba. Escolhe uma gaveta do peito e dorme lá, junto às memórias do que foi bom. Outro dia entrou em questão o quão durável é amor. Eu não gosto de pensar em separação. Para aqueles que sabem amar, bem capaz de ser infinito (pois me desculpe Vinícius, o amor não é chama, é vento). E eu quero. Quero ficar contando as horas pro encontro Quero subir nas nuvens E sorrir de corpo inteiro ao ver os olhos do outro brilhando. Por mim. Quero sentir meu peito ardendo Poder fazer planos E ter a certeza de que ao meu lado é seu l...